É isso que queremos para a raça Fila Brasileiro ?

                        Esse é o texto de “chamamento” para uma discussão em um site de um grande amigo nosso, onde se mostra a foto de um homem com uma grande parte do rosto dilacerado, onde uma parte do queixo foi arrancada, provavelmente vítima de um acidente.

                        A par de outros companheiros já terem argüido que o fato merece ser melhor debatido, visto que não há informação sobre o que realmente teria acontecido. Acreditamos, em face de alguns indícios, sinceramente que não foi resultado de um ataque de cachorro, muito menos de um Fila Brasileiro.

                        Digo que não teria sido ataque de Fila Brasileiro, pois, um bom Fila Brasileiro não ataca ser humano sem ser para defesa (defesa territorial, em caso de invasão por desconhecido, defesa pessoal em caso de ataque contra si próprio, ou ataque ou ameaça contra o dono, ou ainda como defesa em casos de provocação). E mesmo assim, quando o bom Fila Brasileiro ataca ele somente agarra o agressor com a boca (Filar = segurar) e ai vai depender do agressor se imobilizar (parar seus movimentos) que ele, agressor, não irá sofrer maiores danos físicos.

                        Vamos debater o assunto considerando a hipótese (mínima e quase improvável) de que teria sido resultado do ataque de um cão Fila Brasileiro, apenas para podermos dialogar, discutir e chegar a uma conclusão.

                        Por causa disso, dessa grave ofensa física a uma pessoa, iremos mudar as nossas idéias a respeito do temperamento correto do Fila Brasileiro? Não, não mudamos, nem mudaremos, pois, entendemos que todo cidadão tem o DIREITO legal de se resguardar, e concomitantemente resguardar a sua família, seus bens e patrimônio contra a criminalidade e contra a violência da criminalidade, adotando todas as medidas legais, cabíveis e possíveis. Logicamente que o cidadão proprietário/dono de um cão de guarda, DEVE, paralelamente, adotar todas as medidas cautelares e as RESPONSABILIDADES e DEVERES, inclusive as citadas em legislação e normas técnicas de segurança na “guarda”, na “posse”, na “condução” e na manutenção de um cão de Guarda (Lei de Posse Responsável) para evitar danos físicos ou morais a um “inocente” ou a terceiros inofensivos.

                        A própria lei garante muitos artifícios para garantir um pouco a nossa tranqüilidade e segurança nos nossos lares.

                        Há lei, em muitos municípios brasileiros, que institui e regulamenta o uso de objetos para aumentar a inviolabilidade das propriedades e moradias (alarme sonoro, câmeras de vídeo, cerca elétrica elevada, lâminas perfuro/cortante elevadas denominadas de concertina em algumas regiões e juridicamente denominadas de “ofendículos”, muros altos e com barreiras inclinadas, grades com pontas de lança ao redor da propriedade, etc. e etc.) e esses instrumentos poderiam ocasional e hipoteticamente causar danos a um inocente, como por exemplo: uma criança de sete anos que quer ir pegar o seu artefato de brinquedo “pipa/papagaio/quadrado” que caiu na casa do vizinho. Aqui o inocente pagará pela falta de educação dos pais.

                        Há inclusive lei que obriga o uso da placa de alerta (“cuidado com o cão”). Eu mesmo possuo algumas de Fila Brasileiro (Apache do vale do Aricanduva) expostas nos muros de minha residência, com a citação da Lei municipal. Isso ajuda e muito em casos de “inocentes” invadirem a propriedade.

                        Vamos pegar um caso policial recente, como o acontecido lá no Rio de Janeiro na semana passada, onde um assaltante, munido de uma granada, seqüestrava uma mulher e foi interrompido por dois policiais desarmados, os quais tentavam demover o assaltante a soltar a mulher e a se entregar, no que não eram atendidos. Pois bem, em dado momento, a mulher/vítima, que estava passando mal, teve um momento de dor e cansaço e se abaixou ligeiramente, momento em que um terceiro policial, atirador de elite, mais afastado, dispara um único tiro, muito preciso e consegue “neutralizar” o AGRESSOR, ASSALTANTE E SEQUESTRADOR. Lógico que uma parte da imprensa, como não poderia deixar de sê-lo, passou a tentar atacar a Polícia Militar do ERJ, dizendo que o disparo poderia ter atingido um “inocente” ali próximo, etc.. Entrevistaram a mãe do assaltante “neutralizado” e ela declarou que a Polícia “poderia” ter esperado um pouco mais, pois o filho dela era muito bom e coisa e tal, e afirmou que ele nunca iria detonar a granada. 

Mas e a LEI, algum repórter, ou alguém se lembrou do que diz a Lei? Não, ninguém nesse momento lembra do que diz a Lei. Pois bem, a lei diz entre outras coisas: “Legítima defesa – causa EXCLUDENTE de culpabilidade – Quando alguém (uma pessoa) repele injusta AGRESSÃO, atual ou iminente, contra si, ou contra outrem, usando moderadamente dos meios necessários”. A Polícia (Militar ou Civil) tem o DEVER de cumprir a lei, de manter a segurança pública e cumprir as ordens (Mandados) judiciais, entre outras obrigações legais. Portanto, apesar de algumas pessoas entenderem diferente, o cidadão de bem também tem o direito/dever de procurar se resguardar, se proteger, proteger a sua família o seu patrimônio e as suas posses, tudo dentro dos estritos termos da legislação em vigor. Vou citar um outro exemplo (esse um pouco mais velho) – Um homem (primeiro) armado, se esconde em uma rua mal iluminada, e espera pacientemente uma pessoa passar, nisso, um outro homem (segundo) entra no trecho mal iluminado e passa pelo primeiro. Assim que o segundo passa, o primeiro sai de seu esconderijo e apontando o revólver para o segundo, lhe diz, “é um assalto, pode me passar tudo que você tem”. O segundo volta-se e depara com o primeiro lhe apontando a arma, e, subitamente, fazendo menção de que iria pegar algo no bolso da calça, lança-se contra o primeiro, e entram em luta corporal. Ao fim de um tempo curto, ambos cansados, se afastam um pouco, um do outro, ao que o primeiro aproveita a oportunidade e dispara dois tiros, atingindo mortalmente o segundo, que falece em seguida. Nisso, uma patrulha policial que passava próximo, ao escutar os estampidos, se dirige ao local e surpreende o primeiro ainda com a arma na mão. Os PMs dão voz de prisão ao primeiro e determinam que ele solte a arma no chão. O primeiro obedece e solta a arma. Conduzido até a Delegacia, ele alega para o Delegado de Plantão que ele atirou em “Legítima Defesa”, pois, o segundo homem o atacou subitamente quando ele estava pacificamente “trabalhando”. Pergunto-lhes: É o caso de legítima defesa? R/ Não. A ação dele (primeiro) não era legítima, pois não há lei que ampare o roubo, ou o furto, ou qualquer outro tipo de crime (pelo contrário a lei –CPB- combate e inibe, ou tenta inibir todos os crimes). 

                        Cidadão é a pessoa que cumpre os seus deveres e obrigações legais e, dessa forma, também pode (e deve) exercer todos os seus correspondentes direitos.

                        Coaduno totalmente com a opinião do nosso amigo, Dr. André Buck, Médico Veterinário, o Fila Brasileiro deve se destacar pelo seu temperamento/comportamento de GUARDA, cujo termo quer dizer: tomar conta, cuidar, resguardar contra agressões ou danos, manter o seu território inviolável e impedir invasões estranhas, defender-se e defender os demais membros da sua “matilha” (todo o grupamento humano ou animal) inclusive fora da área de seu território. Ao mesmo tempo o Fila Brasileiro, numa quase contradição, deve ser inteiramente submisso ao “chefe da matilha”, ao qual lhe permitirá tudo, inclusive que ele (chefe) lhe tome o alimento, ou o manuseie da forma que for, impingindo-lhe inclusive dor, sem qualquer reação agressiva danosa ao mesmo (chefe). Submissão total e irrestrita. O bom FB fica olhando para o seu “chefe”, com olhos de adoração extrema, como se estivesse olhando para Deus. O bom FB pode até machucar o seu “chefe”, por descuido, involuntariamente em um de seus momentos de alegria, numa brincadeira mais pesada, por exemplo. Más nunca, nunca mesmo, “intencionalmente”. 

                        Vejam que o próprio Padrão Racial do Fila Brasileiro elenca as faltas desqualificantes em  ordem numérica  das duas mais graves para as demais não tão graves, iniciando-se pela:

1ª) Agressividade para com seu dono (seu chefe absoluto, a quem deve submissão irrestrita); 
2ª) Covardia;

3ª) trufa cor de carne; etc… 
Com isso, os autores do Padrão quiseram deixar claro e evidente que essas duas primeiras faltas não poderiam permanecer, ou serem introduzidas, na Raça Fila Brasileiro, pois, isso desconfiguraria as características exigidas para a perfeita funcionalidade como guarda, pois, o “guardião” não pode agredir o seu próprio chefe/dono, nem pode ser covarde, pois, ante o perigo, ou numa situação extraordinária poderia causar mais dano ao grupo, agredindo o seu próprio chefe numa clara “INSUBMISSÃO”, ou poderia fugir por medo, caracterizando a ‘DESERÇÃO” e “COVARDIA”, deixando assim, em ambos os casos, de ser GUARDA. Vejam que esses dois atos (Insubmissão/ataque ao chefe e Deserção/Covardia), principalmente em face do perigo ou diante do inimigo, quando praticados pelo militar são enquadrados como crime e dos mais graves, previstos no CPM (Código Penal Militar). Sempre poderíamos traçar paralelos com os humanos/militares que desempenham função de Guarda, para podermos fazer uma melhor avaliação.

                        Gostaria também de deixar claro que o Fila Brasileiro não considera como seu chefe, ou dono, o proprietário constante do CRO, com o qual, muitas vezes não mantém amizade ou sequer o conhece, nem tem contacto. Ele considera o seu chefe/líder, igual ao chefe/líder de uma matilha, pois, o chefe/líder da matilha é aquele animal (humano ou não) que lhe alimenta, que lhe conduz com energia em direção segura, que lhe comanda assumindo a liderança boa e proveitosa ao grupo, que lhe acaricia em muitas oportunidades, que constantemente lhe examina para ver se há algum problema, que lhe leva ao Médico Veterinário quando ele fica doente, ou quando vai tomar vacinas, que lhe mantém provido de água, que lhe proporciona conforto e bem estar, com abrigo contra as intempéries e coisas assim. Vou aproveitar e contar uma história que me foi contada pelo próprio protagonista: Um conhecido meu, proprietário de um Fila Brasileiro, com o qual houvera tido um contacto muito curto na infância desse Fila Brasileiro, o havia deixado num sítio de sua propriedade, junto com o caseiro, que ficara incumbido de prover as necessidades do desafortunado FB; pois bem, esse meu conhecido ia para o sítio a cada seis ou sete meses, e nessas ocasiões não tinha contacto direto com o Fila Brasileiro, que, conforme informava o caseiro estava preso no canil, pois era um pouco agressivo. Daí se passaram cerca de uns dois anos, e, num determinado dia, esse meu conhecido, após ter ingerido uma certa quantidade de bebida alcoólica, foi até o sítio, e, lá chegando, por estar o portão fechado, foi e pulou a cerca, adentrando à área do sítio, em dado momento, quando já estava perto da casa do caseiro, cerca de uns cem metros, eis que surge o desafortunado Fila Brasileiro, o qual ao avistar esse meu conhecido, não teve dúvidas, partiu para cima e o atacou, mordendo-lhe um dos braços e depois uma das pernas, sendo que, acudindo ao gritos e berros, o caseiro correu até o local e conseguiu conter o FB. 

Machucado, esse meu conhecido, dias após, se queixou comigo, dizendo que o seu FB lhe houvera mordido, a ele, seu “próprio dono”, o qual não quis me ouvir, quando tentei lhe explicar a diferença entre o dono no “papel” e o dono/líder de fato, que era o caseiro.  Quanto mais amor dermos ao nosso FB, mais ele nos defenderá, por isso estimulem todas as pessoas da casa a manterem contacto constante e permanente com os FB e também a agradá-los constantemente, interagindo, pois, dessa forma vocês terão sempre o FB como ele deve ser, um perfeito “GUARDIÃO”, ou seja, um amigo submisso dos amigos da casa e um “inimigo” dos inimigos de fora do seio grupal (matilha).

                        Devemos manter o Fila Brasileiro dentro do seu território, principalmente na puberdade, sem contacto direto com as pessoas estranhas ao seio familiar, pois, dessa forma, ele “naturalmente” irá guardar e defender a “matilha e seu território”, exatamente como um bom guarda deve fazer.

                        Quando nós tirarmos o FB de seu território, devemos conduzí-lo com todas as cautelas legais, impedindo-o de uma agressão injustificada (sem provocação), para, dessa forma, não darmos motivos para alguns “politiqueiros” proporem leis contra Raças Caninas consideradas “perigosas”. Se, acaso, essas saídas do território de guarda forem numerosas, deveremos adotar cautelas extras, com comandos vocálicos constantes e agrados constantes sempre que o FB se comportar corretamente, ou seja, não havendo motivo, nem provocação, ele não deve reagir defensivamente, nem agressivamente. Porém, se houver motivo, ou provocação, deve ser acariciado se defender-se, ou nos defender corretamente na função de guarda e defesa. Esses estímulos (vocálicos ou gestuais) servem como um eficiente controle e servem para estimulá-lo, ou desestimulá-lo, conforme analisarmos cada situação. Não significa que eu esteja dizendo que o Fila Brasileiro somente atacará mediante comando, ou deixará de atacar mediante comando. Ele, FB, com o tempo nos passará a entender quase que como uma criança de idade tenra.

                        A maior e a melhor característica do Fila Brasileiro é o seu comportamento/ temperamento, na minha humilde opinião, e não podemos, em hipótese alguma, modificá-lo sob o pretexto de um ataque de cão (se é que foi resultado de ataque de cão) de outra Raça, pois, ataque de Fila Brasileiro não resultaria no que vemos lá na foto mencionada no início.

                        Nós, “fileiros”, devemos adotar todas as medidas legais de cautela para não deixarmos o Fila Brasileiro ser considerado como uma Raça perigosa. Ele é, e deve ser sempre uma Raça de Guarda, portanto, deve guardar e defender o território, deve defender os componentes do grupo (matilha) e defender-se nos casos de agressões ou ameaças. Nunca deverá ser usado para atacar sem motivação, nem estimulado a isso.

                        A lei prevê penas em casos de condenação e também prevê o “ressarcimento” da (s) vítima (s) nos casos de dano físico, material ou moral, causados por animal sob nossa “guarda”, ou “responsabilidade”, ou “posse”.

                        A lei também prevê que o responsável pela guarda, ou posse do animal, não será condenado quando PROVAR culpa exclusiva da (s) vítima (s).

                        Lembrem-se: Direitos e Deveres caminham juntos.

                        Esse é o meu entendimento.

                                   São Paulo, 30 de setembro de 2009.

Virgílio De Martella Orsi.

Canil Vale do Aricanduva / SP

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