Manual de Avaliação para a Raça Fila Brasileiro

 

                                                    Manual de Avaliação para a Raça Fila Brasileiro

  Agradeço a contribuição anónima de todos os criadores e Juízes, pela ajuda na elaboração e correcções deste texto.

 O objectivo deste texto é o de auxiliar aos Juízes que forem julgar uma Especializada e criadores que forem julgar um “Match” pela primeira vez e também para que os assistentes de um “match” ou de uma exposição especializada entendam os procedimentos usados pelos julgadores dos mesmos.Temos também a intenção de orientar os organizadores dos eventos, passamos aqui a experiência de todos agregada.

Os criadores, preferencialmente em reunião conjunta, devem escolher o juiz (Exposição Especializada) ou o criador (Match) que fará o julgamento e fazer contacto (se houver Clube Especializado ou Departamento Especializado de Clube Eclético, este é quem deverá tomar as iniciativas de contacto com o Juiz, de organização, de medidas administrativas, etc.) com o mesmo para combinar os detalhes de viagem , hospedagem , data e demais procedimentos para a logística do convidado.

Depois de acertados o julgador e a data do evento, os organizadores devem pedir, com bastante antecedência, a homologação junto à CBKC e escolher o local onde será realizado . Este local deverá ser amplo e a pista deverá ter no mínimo 10 X 15 metros, conforme consta no Regulamento de Exposições da CBKC/FCI  e piso antiderrapante para possibilitar a boa movimentação dos exemplares avaliados. O ideal é que o evento seja numa data separada das Exposições Gerais para uma maior confraternização dos criadores que estarão no evento.

Marca-se uma data limite para as inscrições dos exemplares , normalmente 04 dias antes da realização do evento e encerradas as inscrições, os organizadores devem reunir-se para elaborar o catálogo e preencher o cabeçalho das súmulas , bem como combinar como farão para montar a pista no dia do evento.

No dia do evento deverá haver um responsável (tesoureiro/secretário) pelo recebimento dos comprovantes de quitação das inscrições e entrega dos números dos exemplares , outro para levar o juiz até o local e outros para montarem a pista e a mesa para o juiz e o auxiliar de pista.Os organizadores devem disponibilizar os materiais exigidos no Regulamento de Exposições {um exemplar do Padrão Racial, uma régua de medição oficial –altura e comprimento, uma balança (se possível) com capacidade para medir o peso até cerca de 100 quilogramas; água para o Juiz e Auxiliar, álcool para assepsia das mãos do Juiz, papel toalha, certificados para assinatura, súmulas, canetas,etc. e outros materiais, caso o juiz os solicite}.

O Juiz

Sugerimos a todos os criadores que adquiram um manual de Estrutura e Dinâmica da CBKC , pois, este manual é de grande valia para quem vai julgar e também para quem observa o evento , também o julgador deve ter sempre consigo o padrão oficial da raça (bem como os organizadores do evento e mantê-lo à disposição do Juiz) , pois, em caso de alguma dúvida (o que é normal durante um julgamento) o padrão deverá ser consultado para dar mais segurança no julgamento.

O convidado que aceitar julgar, deve fazê-lo com muito prazer e respeito aos exemplares, julgando de maneira uniforme e isonômica (dispensando o mesmo tratamento e oportunidades a todos os exemplares), mesmo que a uma primeira olhada algum exemplar não lhe agrade.

O Evento

Teste de temperamento

Em havendo  teste de temperamento , este deve ser feito nos exemplares acima de 01 ano de idade (12 meses) , um a um , num local isolado e separado da pista,  antes do início da entrada dos Filas em pista , da seguinte forma:

_ o apresentador segura o Fila por uma guia longa e frouxa junto a si colocando uma perna à frente da outra.

_ Um cobaia, com duas varas longas, aproxima-se atacando em direcção ao apresentador, neste momento o Fila deve imediatamente atacar o cobaia esticando totalmente a guia e quando ela estiver toda esticada, ele (Fila) ficará em pé na diagonal, sempre forçando para pegar o agressor , durante esses instantes, um segundo cobaia, a uma distância de pelo menos 05 metros do exemplar, dispara tiros de festim (pelo menos dois tiros) para o alto (ou em uma direção segura).

O exemplar que recuar para trás do dono, mostrando temeridade ou tentativa de fuga, deverá ser reprovado no teste.

O exemplar que mostrar indiferença será aprovado , más com qualificação não muito boa

O exemplar que atacar forte na diagonal ascendente será aprovado com qualificação excelente.

O tiro não desqualifica o exemplar, mas, a reação negativa a este pesa negativamente na hora do julgamento do árbitro.

O exemplar desqualificado no temperamento não participa da pista do juiz que o reprovou , podendo numa próxima oportunidade refazer o teste de temperamento novamente e, se aprovado, participará normalmente daquela pista.

Feito o teste de temperamento, os exemplares acima de 12 meses aprovados mais os outros inscritos (que não fizeram o teste) vão para a pista de julgamento obedecendo a ordem de chamada das classes (consoante consta no Regulamento de Exposições da CBKC/FCI).

OBS: Os exemplares que possuem o título de Campeão e Grande Campeão não são obrigados a realizar o teste de temperamento {visto que esse teste serve justamente para se poder homologar o título de Campeão (conforme consta no Padrão Racial)}, mas, eu sugiro que (todos) participem , pois no caso de desempate entre dois ou mais exemplares, o juiz deverá tomar em conta o que  apresentou melhor desempenho no teste de temperamento, e se alguns não fizerem ficam prejudicados. Caso o Teste não seja realizado, o avaliador deverá, durante todo o transcorrer da Exposição, observar atentamente o comportamento de cada exemplar, principalmente o porte da cauda, penalizando aquele exemplar que a mantiver enfiada entre as pernas, principalmente se a enfiar entre as pernas e a comprimir contra a parte inferior do corpo, na região abdominal, pois, isso caracteriza a timidez ou o medo excessivo. Poderá também o julgador provocar algum tipo de ruído (estalar de prancheta, por exemplo) súbito para testar os exemplares em pista.

O Julgamento

Entram os Filas Brasileiros nas suas respectivas classes , ao entrarem o auxiliar deve orientá-los para que cada um fique atrás do outro por ordem de numeração (crescente, ou seja, o menor algarismo seguido do seu subsequente e assim por diante) a uma distância de pelo menos 02 metros entre eles. Neste momento o juiz, posicionado a uma distância de  cerca de oito a doze metros, já deve dar uma olhada geral (visão panorâmica) comparando os exemplares e mentalmente avaliando seus fenótipos.

Estando os exemplares dispostos um atrás do outro, o juiz, aproximando-se, deve chamar o que está em primeiro na fila,  afastando-o um pouco dos demais para iniciar a avaliação individual, a qual consiste em:

1-Primeiro passo: avaliar a cabeça que é a parte do Fila Brasileiro que nos mostra a tipicidade maior, neste momento deve ser observado: crânio , focinho , relação crânio/focinho, sulco mediano, arcada superciliar, Stop, olhos, occipital, inserção de orelhas e orelhas , boca (verificar a mordedura , se a dentição é completa , chaves de dentição), lábios superiores e inferiores, trufa, etc..

2- Segundo – verificar a pele (característica fundamental do Fila) solta , textura grossa , pêlo de comprimento curto, bem acamado, bem como a sua coloração.

3- Terceiro , sendo macho o exemplar, verificar se possui os dois testículos. OBS: em filhotes até 06 meses, o bom é tocar para ver se já desceram bem para o saco (bolsa) escrotal e sentir se eles estão parelhos (parecidos em tamanho e textura) , em adultos eles devem ser nitidamente destacados , em caso de dificuldade , solicitar para o próprio apresentador mostrar.

4- afastando-se e ficando na lateral do Fila (vista de perfil) , o juiz deve avaliar:

a)- o corpo, se está dentro da figura retangular e compacta.

b) –profundidade de peito (altura da linha superior/cernelha até a linha inferior do tórax, a qual de preferência deve coincidir com a linha do nível do cotovelo) e altura do exemplar (cernelha até o cotovelo + cotovelo até o solo, sendo que o ideal é que ambas as medidas sejam iguais)

c)-pescoço formando uma suave curvatura da cernelha até o occipital (linha superior ligeiramente convexa) , forte e musculoso com a pele bem solta, aparentando ser curto e grosso.

d)-linha superior ( do tronco e pescoço ), descendendo até o final da cernelha e, logo após, na altura da dobradiça, ascendendo até o início da  Garupa (ancas ou protuberância ilíaca) , sendo que o ponto onde muda de direcção , chamamos de dobradiça (parte do tronco onde há muita flexibilidade, o que proporciona o poder de se dobrar facilmente e mudar de direção).

e) linha inferior , paralela ao solo até o término do osso esterno (apêndice xifóide), depois, subindo suavemente nos machos até a bainha do pênis e nas fêmeas até a aba do flanco .

f) angulação e comprimento da Garupa , angulada a 30 graus com a horizontal, larga (no mínimo igual a largura do peito) e longa, definindo uma suave curva do seu início até a ponta da nádega.

g)-angulações de posteriores: o fêmur deve ser angulado em 90 graus com o coxal e deve formar (o fêmur) uma angulação moderada  com a tíbia (angulação do joelho), bem como a angulação formada desta (tíbia) com o tarso deve ser moderada, sendo que a angulação do tarso com a linha do solo deve ser em torno de 90 graus (formando a posição de “stay”); angulação de anteriores formada pela escápula que deve ser angulada a 45 graus da horizontal e pelo úmero que deve ser angulado a 90 graus da escápula , ambos (escápula e úmero) devem ter tamanhos iguais. Sendo que os metacarpos devem possuir uma ligeira inclinação em relação ao restante do membro, o que possibilita um amortecimento de choques quando o animal saltar, por exemplo.

h) inserção, espessura (grossura) e comprimento de cauda (grossa na raiz, afinando subitamente e depois progressivamente em direção à ponta, a qual deve idealmente alcançar o jarrete).

i) comprimento do  animal, visto (medido) do antepeito até a ponta posterior do ísquio (deve ser igual à altura mais 10 %), tomando-se o cuidado de somente medir a altura quando o animal estiver sobre um piso firme, nivelado e sem irregularidades (buracos, ou saliências), preferencialmente em piso de cimento áspero e nivelado e com o animal em “stay”.

J) ante-peito (região da ponta do esterno) o qual (ponta do esterno) deverá estar ligeiramente à frente da articulação escapulo-umeral (ombro)

k) stop virtual formado pelas arcadas superciliares, visto de perfil.

5-O juiz vai para a frente do Fila para verificar o Stop (quase inexistente deste ângulo) , os aprumos dianteiros,  as barbelas (duas dobras de pele soltas e paralelas que nascem na garganta e descem pelo antepeito, muitas vezes estendendo-se por toda a linha inferior) , a largura de peito (não confundir largura de peito com ante-peito), e posicionando-se (o Juiz) à frente, um pouco lateralmente, verifica a inserção das orelhas, com a linha superior do crânio estando em nível (horizontalizada), ele traça uma linha imaginária interligando o ponto médio dos olhos (de ambos) e continua essa recta imaginária até a inserção (o ponto mais alto da orelha, no local onde ela se junta, se insere, no crânio), se a reta imaginária tangenciar esse ponto, então a inserção estará correta. O analisador deverá tomar especial cuidado na hora de verificar essa inserção, pois, o Fila Brasileiro deverá estar em repouso, descontraído, caso contrário poderá erguer a inserção das orelhas para observar algo e, daí resultará que a inserção, apesar de hipoteticamente correcta, ser julgada incorrecta. 

6- O juiz vai para a parte de trás do Fila onde vai avaliar a traseira e também a altura da Garupa em relação a cernelha (A garupa não pode ser mais baixa do que o nível da cernelha). Se tiver dificuldades poderá, quando da visão panorâmica (de perfil e à distância), efetuar o cotejamento com a ajuda de alguma linha horizontalizada (um muro, por exemplo).

7-Após avaliado os itens acima, com o exemplar em “Stay” onde observamos o Fenótipo, é chegada a hora de analisar a movimentação (estrutura e dinâmica) do mesmo, para tanto o juiz deve solicitar para que o apresentador movimente-se com seu Fila Brasileiro a passo bem lento (em uma reta fazendo o “ir” e “vir”, ou então formando-se um triângulo com o Juiz formando um dos vértices desse);  e em movimentação de Exposição (trote);  fazendo tanto  o “ir e vir” e em círculo  por pelo menos duas voltas completas. Nestas duas formas o juiz vai analisar :

-o passo de camelo ( movimento dos dois membros de um lado simultaneamente  e depois os dois membros do outro lado também simultaneamente), o andar felino (andar muito semelhante ao de uma leoa na selva africana, onde o desequilíbrio do centro de gravidade do Fila é a cabeça , porisso o andar começa com a cabeça baixa e à frente do corpo, podendo esta elevar-se até pouco acima da linha do dorso,  porém nunca com a cabeça alta ou com o pescoço formando um ângulo de 90 graus com a escápula (ou mais). Ao pisar o chão, os metacarpos cedem, amortecendo a passada (por isso os carpos devem ter uma ligeira inclinação em relação à vertical dos anteriores, cerca de 15 º a 20 º).

– a linha superior (se se mantém quase estável, ou não)

– a linha inferior

– o alcance de solo (compara-se vendo quantos passos o animal deu para cobrir uma distância determinada, sendo que quanto menos passos der para cobrir o mesmo espaço, maior o seu alcance)

– a elasticidade do passo (diferenciando-se nitidamente do movimento rígido e teso, parecendo perna de robôt, ou perna de pau)

– o “gingado” (visto de cima, o corpo se movimenta em forma de S, rebolando)  quando a passo. Por trás se notará o jogar do quadril de um para o outro lado.

as articulações (que devem ser bem frouxas, flexíveis)

– as angulações

– o balanço lateral da pele ao longo do corpo e pescoço,

– todos estes ítens em movimento , por isto é necessário pelo menos duas voltas em círculo a passo lento com a guia bem frouxa (formando uma barriga) e o Fila afastado lateralmente do apresentador.

Após analisados estes itens a passo, o juiz solicita ao apresentador que mude o estado do movimento do passo de camelo para o trote , os mesmos itens anteriores devem ser analisados , porém agora no trote por pelo menos mais duas voltas .

No próximo item, o juiz vai analisar  o Fila a passo em linha reta ida e volta , durante a ida o juiz poderá acompanhar um pouco atrás do Fila para ver bem os aprumos traseiros (se se mantêm verticais e paralelos) e também a linha superior, no retorno do Fila avalia-se os aprumos anteriores e a posição  dos cotovelos que devem ser juntos ao peito , bem como o alcance da passada.

Depois disto, novamente ida e volta, porém, desta vez ao trote , finalizando com isto a análise individual do exemplar , chamando o auxiliar para neste momento preencher a súmula com o que analisou e colocando suas observações sobre tudo que viu e também quais: a melhor característica e a maior falha (falta); bem como a qualificação individual daquele exemplar.

Após analisar e preencher a súmula de cada exemplar, individualmente, o juiz colocará todos nas suas posições iniciais da classe e novamente dará uma olhada geral em todos , pedindo para que todos movimentem-se em círculos e a passos lentos, escolhendo aí o Fila Brasileiro que achou possuir as melhores qualidades a seu critério.

Não aconselho escolher o vencedor a trote, pois o que interessa, que é o alcance de solo, já foi avaliado no trote individual e nada importa o Fila que trota mais rápido e sim o que tem melhor cobertura de solo (aquele que com o mesmo número de passadas, ganhou mais terreno).

Repetir-se-ão estes passos acima em todas as classes, escolhendo-se o melhor de cada classe , os quais participarão da escolha do melhor do sexo (somente das classes jovem para cima) , o melhor de sexo disputará a condição de BOB (Melhor da Raça) com o melhor do sexo oposto {BOS (Melhor do Sexo oposto)}, finalizando o julgamento.

Muito Importante, durante todo o transcorrer do julgamento, o juiz deverá ficar atento e analisando o temperamento dos exemplares em pista.

O vencedor do evento não quer dizer que seja o melhor sempre , mas sim o que estava melhor naquele momento específico perante a óptica deste avaliador.

Esperamos através deste texto contribuir para o bom entendimento do que se passa dentro de uma pista de julgamento em relação à raça Fila Brasileiro.

Autoria de Alexandre Bacci Acunha (RS).

Superficialmente modificado por Virgílio De Martella Orsi (SP).

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