O Nono Mandamento – por Clélia Kruel

 

Recém terminei de ler o livro ” El Gran Libro del Fila Brasileño” escrito pela Sra Inés van Damme, Tikal Ediciones, Madrid, 2000, capa mole, de 407 páginas. O título me pareceu familiar porque o Prof. Procópio do Valle e o Sr. Enio Monte já haviam publicado um livro em l981, Editora Nobel, exactamente com o mesmo título em português: O Grande Livro do Fila Brasileiro.

Eu apreciei algumas estórias e fotografias, porém não entendi porque esse livro é uma perfeita propaganda pró Cafib dirigida a lavar o cérebro do leitor com constantes repetições contra as cores dos Filas pretos e tigrados escuros, ao invés de ser uma fonte de informação sobre a raça. Alguns capítulos sobre canis europeus são de valor para quem está interessado na expansão do Fila Brasileiro na Europa, embora estejam contaminados pela constante obcessão da autora em denegrir canis que não seguem o padrão do Cafib.

A autora repete, como se fosse um disco quebrado, que os verdadeiros Filas, os puros e autênticos Filas, existem somente em Espanha e em alguns canis de Minas Gerais, e que 80% dos Filas brasileiros são mestiços….mas nunca menciona uma prova ou evidência do facto, nem tampouco explica como foi que aconteceu o milagre de existirem “autênticos e puros Filas” somente do Cafib. Ela também continua repetindo que os mestiçadores arruinaram com a raça em l974, esquecendo de mencionar o que aconteceu em Minas Gerais bem antes das décadas de 30 e 50. Eu darei um pouco adiante, declarações feitas por criadores com seus nomes, datas e locais. Uma meia verdade é enganosa e a autora deste livro parece ser uma especialista em informações enganosas, talvez porque durante as três visitas que fez ao Brasil não teve tempo suficiente para obter a história por completo, especialmente sobre os “autênticos Filas” de Minas Gerais. Na sua opinião, os criadores dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro foram os líderes da mestiçagem durante o ano de l974, esquecendo que o estado de São Paulo é a base do Cafib e também da casa do canil Parnapuan que ela tanto elogia. Na realidade não entende nada de pedigrees, do contrário ela saberia que os Filas de criação Camping descendem directamente das linhas Samor e Parnapuan, começando com Fera do Parnapuan, uma fêmea oriunda de Pedrinho do Engenho ( Minas Gerais ). Sem saber do que está falando, a autora coloca a fotografia de Antares do Camping na página l99 com o texto: “Exemplar que muestra la influencia del Mastino Napolitano”!

De onde essa senhora tirou a idéia de que a tradicional família Sampaio Moreira ou o dono do canil Parnapuan poderiam mestiçar Filas com Mastins Napolitanos ? Certamente esta suposta mestiçagem não ocorreu nos últimos vinte e quatro anos em que eu tenho me dedicado a preservar a raça usando a técnica de “linebreeding”, que resultou em obtermos campeões ano após ano no canil Camping desde l977. Selecionar Filas sempre foi minha paixão e somente exportei o melhor para os Estados Unidos, inclusivé as duas primeiras campeãs brasileiras a chegar nos Estados Unidos: Ch. Artemis do Igarapáua e Ch. Aretuza do Tibaitá ( as duas certificadas OFA Good _ isentas de displasia ).

A fim de preservar somente Filas saudáveis, eu fui a primeira criadora de Filas no Brasil a radiografar meu plantel em l983, a fim de evitar a praga da displasia. Os seguidores da Cafib nunca fizeram isso. Eles não se importavam e ainda continuam não se importando com a displasia coxo femoral e o resultado de sua omissão trouxe graves perdas para os criadores da Alemanha que importaram cachorros displásicos da Fazenda da Carolina e Três Curumins. Aqui nos Estados Unidos o mesmo aconteceu com importações destes mesmos canis do Cafib.. Voltando ao assunto da página l99, pode-se constatar que o nome do proprietário de Antares foi omitido no livro. O actual proprietário, e o antigo proprietário, na casa de quem foi tirada a fotografia, nunca deram autorização para que a fotografia fosse publicada.. É interessante também notar que na página 209, a autora não menciona a evidente influência de Dogue Alemão em cães vindos de Minas Gerais. Algumas exportações desses cachorros foi feita durante nos anos 50, quando o padrão da raça já estava escrito com a ajuda de quem exportou esses cães. Portanto, Dr. Santos Cruz sabia como reconhecer um Fila puro naquela época, embora ele tenha declarado nos anos seguintes de que desconhecia a raça.. Três senhores foram selecionados para redigir o primeiro padrão da raça, justamente por causa do seu conhecimento sobre o assunto, e Dr. Paulo Santos Cruz foi um deles. Ele costumava voar para Minas Gerais no seu pequeno avião e trazer Filas para vendê-los na cidade de Santos, através dos jornais locais.Pelo menos esta parte da história foi contada pela Sra. van Damme em seu livro. Mais adiante, na página 301, a autora escreve sobre “a má qualidade dos Filas americanos”, os quais ela nunca viu.

Os americanos possuem a mais sofisticada cinofilia do mundo, e eles estudam a raça antes de adquirir um exemplar. Os criadores americanos sabem da importância da genética ,  e da importância de lerem pedigrees. Eles sabem acerca do gene B que sempre existiu no Mastiff Inglês, no antigo Bulldog e no Bloodhound. Este genes não podem desaparecer no Fila Brasileiro como os cafibianos gostariam que acontecesse. Os americanos sabem que mestiçadores sempre existiram no mundo inteiro, na Europa, nos EE.UU., ou em Minas Gerais, mesmo antes de l974, e que as fábricas de cachorros possuem uma grande facilidade para fraudar pedigrees. Quem é ingênuo? Os americanos sabem quando seus cães seguem ou não seguem o padrão oficial da CBKC/FCI . Árbitros brasileiros, conhecedores da raça, que vieram do Brasil para julgar no FBA Fall Circuit ficaram surpresos ao ver a alta qualidade dos Filas americanos. Eles são maiores e mais pesados devido a boa alimentação e aos suplementos que os americanos dão aos seus cachorros. 

Não é à toa que os Filas americanos ganharam o melhor de raça na Mundial da Suíça, segundo lugar na Mundial da Argentina, melhor de raça na Hungria, terceiro e quarto lugar na Mundial do México. Obviamente Cafib não tem lugar na América e porque neste país a cor preta é muito popular. A paixão dos americanos pelo Fila pode se igualar a paixão dos brasileiros pela sua raça nacional, com a diferença de que a maioria dos americanos guardam seus Filas dentro de casa e os tratam como se fossem suas próprias crianças

Com algumas excepções de pessoas interessadas somente em lucros, a maioria dos criadores possuem poucos exemplares, como eu mesma. Possuo no momento apenas oito Filas, sendo Saci o mais velho. Eles são cães selecionados, mesmo porque eu não guardaria lixo depois de selecionar Filas por mais de vinte e quatro anos consecutivos, conseguindo obter campeões ano após ano. Antares do Camping é um produto de Saci do Camping com Basra da Fazenda do Indomito, ambos livres de displasia , certificados pelo OFA, ambos com excelente temperamento forte. Antares é agressivo quando chega a hora de proteger sua família ou seu território. Aqui estão algumas de suas características, para aqueles que não sabem a diferença entre um Mastim Napolitano e um Fila Brasileiro: 

Características do Mastim Napolitano

Características do Fila Brasileiro

Cabeça: Maciça, crâneo curto, chato, largo de aparência grossa

Grande, Pesada, maciça, de figura trapezoidal

Proporção: Focinho com 1/3 do compr do crâneo,

1/1 ou focinho ligeiramente mais curto, sem stop

As direções dos eixos longitudinais superiores do crâneo e do focinho são paralelas.

A direção dos eixos longitudinais superiores são divergentes

Cor do nariz: De acordo com a pelagem

Nariz sempre preto

Cor dos olhos: Seguem a cor do manto

Do castanho escuro ao amarelo, de acordo com o manto

Olhos: arredondados

Olhos de tamanho médio a grande, amendoados

A pigmentação das pálpebras depende da cor do manto

Pigmentação das pálpebras preta. Pode apresentar as pálpebras caídas devido a profusão de pelo solta

Barbelas: Começam na altura média da mandíbula inferior e alcançam a metade do pescoço

O pescoço é fornecido com pronunciadas barbelas podendo formar dobras na face e no tronco

Rugas: O crâneo tem abundantes dobras e rugas

As rugas no crâneo só aparecem quando o cão está em atenção.

Orelhas: Situadas acima do arco zigomático de forma triangular

Grandes, pendentes, grossas na forma de V com pontas arredondadas e ao nível dos olhos.

Peito: Descendo abaixo do nível do cotovelo

Peito largo descendo ao nível do cotovelo

Garupa: A linha superior é reta com a cernelha elevada

A garupa é mais alta do que a cernelha

Movimentação: Vagarosa, parecida com a do urso

Grande agilidade. O passo de camelo é imprescendível, trote poderoso e galope com grande velocidade.

Cores: Preto, azul, cinza, mógano

Todas as cores sólidas excetuando-se as desqualificantes (branco, cinza-rato, malhado, manchetado, black and tan e azul). Tigrados de fundo nas cres sólidas, com rajas de pouca intensidades até os fortemente rajas, podendo apresentar ou não máscara preta.

Branco: Permitido no peito e na ponta dos dedos

Permitido nos pés, peito e ponta da cauda. Não é desejável em outras partes do corpo.

Desqualificações: Altura nos ombros superior a 76 cms. e inferior a 58 cms. Descoloração total do nariz, canal nasal arqueada ou afundada, , descoloração das pálpebras, vesgos, falta de barbela, muito branco ou branco na face.

Favor olhar as 13 faltas desqualificantes do padrão oficial. Alturas desqualificantes: Machos abaixo de 65 cms e fêmeas abaixo de 60 cms.

Como se pode ver, Antares se ajusta perfeitamente ao padrão oficial da raça e inclusive seu temperamento chega a ser agressivo, altamente protector. Lembrem-se do nono mandamento: Não levantar falso testemunho . Esta é a razão porque eu não apontei o meu dedo para supostos mestiçadores como a autora queria que eu fizesse e me criticou na página número 300 de seu livro. Se houve mestiçadores em São Paulo e no Rio de Janeiro, então não houve mestiçadores no estado de Minas Gerais? Os criadores de Filas em Minas Gerais foram na verdade os primeiros a misturar Filas com cães de caça, Boxers , e Dogues Alemães, mas os seguidores da Cafib insistem em acusar somente criadores dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Nunca houve uma cortina de ferro separando um estado do outro, e nem tão pouco cercas ao redor das fazendas do Brasil. Os Filas podiam cruzar livremente com outras raças que existissem naquelas fazendas e até mesmo com cães selvagens. Isto mostra como as características básicas do Fila são muito fortes. A raça sobreviveu constantes mestiçagens feitas ao redor de 400 anos. Eu tenho selecionado os assim chamados “puros e autênticos Filas”, como a autora gosta de dizer, por mais de 24 anos consecutivos, de acordo com o padrão oficial da raça, no entanto eu não ficaria surpresa, se em alguma ninhada aparecer um rabo de bulldog inglês ou um cachorro com prognatismo inferior.Isso pode vir dos genes dos ancestrais surgindo outra vez ( atavismo ) , tal qual o genes B para a cor preta. Eu posso observar a cor preta em pedigrees dos anos de 1946 com registros iniciais de Filas trazidos de Minas Gerais. A “lista negra” que a Sra. Inés Van Damme publicou,(a mesma lista que já foi publicada em 1979), é uma piada. Ela denigre Núbia de Samor, uma excelente Fila em todos os sentidos. Seu pedigree demonstra que ela é metade Samor e metade Parnapuan, vinda diretamente de Uri e Ela de Parnapuan. Meu primeiro padreador foi o incrível e mais premiado Fila de seu tempo: Ch. Grd. Ch. Ch. Int. Ch. Sulm. Vencedor Nacional do Ranking de 1980, Orixá do Kirongosi. Dr. Paulo Santos Cruz, o julgou por três vezes e por três vezes lhe deu o melhor de raça. Mais tarde o chamou de “mestiço”… Eu julguei Orixá do Kirongosi uma vez e lhe dei o melhor da raça. Ele não apresentava faltas, tinha um magnífico movimento e um óptimo temperamento muito bem controlado. No entanto, algum cafibiano cego o colocou nessa “lista negra” destrutiva. Ninguém se importou com o nono mandamento. Quem é que vai acreditar nos cafibianos depois disso? É correcto preservar a raça, mas não é certo arrastar para a câmara de gás excelentes Filas baseados em suposições. Fanáticos nunca venceram e Cafib está em coma no Brasil. Quando a Sra Van Damme declara na página 147 que: ” Fuera del Standard del Fila Puro están” e escreve uma longa lista, na qual estão inclusos cães como Cacibe dos Pampas (Trinity) e Araribóia, que são justamente os ancestrais dos cães Boa Sorte, ela está cuspindo no seu próprio prato. 



Eu não posso imaginar porque esta senhora usa cães com apenas duas gerações no pedigree. Como pode ela acusar alguém se alguns dos seus cães tem somente o Registro Secundário o qual é infelizmente permitido pelo CBKC? Esta paranóia cafibiana sobre Filas pretos e tigrados escuros serem mestiços é baseada em informação falsa. Eles sempre existiram em Minas Gerais e em outros estados do Brasil. De acordo com o Sr. Enio Monte e Prof do Valle, que obtiveram declarações de criadores confiáveis, na década de 50 havia uma fazenda em Minas Gerais chamada Morro Grande, localizada em Varginha, MG, de propriedade do Cel. Antonio Mariano dos Reis. Além de dourados e tigrados, o Sr. Reis também mantinha uma linha de Filas pretos. A família Reis, junto com José Gomes de Oliveira, foram os maiores criadores de Filas Brasileiros durante as décadas de 40 e 50 em Minas Gerais. Renato Ribeiro Reis começou a sua criação de Filas em 1948, ele costumava dizer que o Fila que mais o impressionou chamava-se Nero, um Fila preto da Fazenda Morro Grande. Ainda em seu livro, Procópio do Valle e Enio Monte, escrevem: “.. José Gomes de Oliveira de Varginha, MG, era o criador que maiores quantidades de Filas fornecia a São Paulo e Belo Horizonte. Seus cães eram amarelos e tigrados, muito grandes, com cabeças pesadas, bastante barbela, e excelente temperamento, embora alguns deles mostrassem muita influência de Dogue Alemão..” José Rezende de Paiva era o criador que preservou as últimas linhagens dos Reis e de José Gomes de Oliveira. Como ele precisava de cachorros boiadeiros, e achava que os Filas eram muito pesados para esse tipo de trabalho, ele cruzou o seu plantel com “Boxers Alemães”, e disse que estava contente com os resultados. Outro criador dos anos 50 foi Pedro Ribeiro Junqueira de Souza da Fazenda do Engenho , em Silvestre Ferraz, atualmente chamada Carmo de Minas e São Lourenço, ele iniciou a criação de Filas Brasileiros em 1920 com cães trazidos por seu cunhado de Cristina, perto de Itajubá. Ele selecionou duas linhas diferentes: Uma tigrada escura, os quais as vezes produziam cinzas e azuis, de tamanho médio, muito fortes, com cabeças maciças e bastante barbela. A outra linha era de grandes cães amarelos e com bastante barbela. Foi desta linhagem de cor amarela que o Dr. Paulo Santos Cruz adquiriu uma fêmea registrada no ano de 1958 sob o nome de Fera de Parnapuan (BKC Nr 16785) à qual cruzada com o famoso Tamoyo de Parnapuan, trazido de Conselheiro Lafayette, deu nascimento em 23 de abril de 1959, a uma das melhores ninhadas do canil Parnapuan devido a sua uniformidade, tamanho e beleza e de acordo com as palavras de Sra. Antonieta Santos Cruz. Nesta ninhada encontrava-se o famoso Orixá de Parnapuan, muito pesado, medindo 79 cms., pesando 94 Kgs, além de outros nove irmãos, entre os quais o Fila preto chamado Ogun de Parnapuan, o qual foi guardado pelo Dr. Santos Cruz para reprodução. Infelizmente, este cão morreu muito cedo.Conforme já mencionei, Fera de Parnapuan é uma dos ancestrais dos Filas de criação Camping.

Outro criador muito conhecido que teve Filas no Vale do São Francisco, foi o Sr. Accioli do canil Tapiocanga (1949).

Foi documentado que sua família, Martins Soares, tinha Filas desde os finais 1800 em Neópolis na fazenda Várzea Nova e Engenho Cadoz. Eles eram chamados “cabeçudos”naquele tempo. Mais tarde, tanto a família como os cães mudaram-se para o estado de Goiás. O Sr. Accioli tinha a teoria de que os “cabeçudos” foram introduzidos pelos legendários bandeirantes (São Paulo). Bandeirantes eram exploradores de São Paulo e que viajavam através do sertão bravio procurando escravos, ouro, diamantes, abrindo novas fronteiras e estabelecendo novos assentamentos em áreas desabitadas do Brasil. Eles precisavam dos Filas durante suas longas expedições, a fim de caçar índios e proteger suas mulas das onças. O Sr. Accioli conta, que a família Caixeta também era uma grande fonte de Filas entre Orizona e Pires do Rio.

Eles eram tigrados escuros em sua maioria. Em 1923, o Sr.Accioli viu Filas pretos e amarelos na fazenda de propriedade da família Gonçalves. O cão que mais o impressionou foi Chibante, um grande cão de cor preta e branca, com uma cabeça muito maciça de propriedade do Sr. Manoel Gonçalves. Ele conta uma história de Chibante derrubando um touro bravo que se recusava a entrar no curral, apavorando os boiadeiros. Chibante também era o líder e o principal guarda da fazenda. Ele marcava seu território em um triângulo: Casa principal, terreiro e o curral. Ele não seguia os boiadeiros quando viajavam com o gado. Esse trabalho era feitos pelos “atravessados”, Filas misturados com cães de caça, e que eram mais leves e preferidos para longas distâncias. O Sr. Accioli, começou o seu canil com cães oriundos de Santa Cruz, Goiás, e seus melhores cães foram Pastor e Protetor de Tapiocanga, um tigrado com branco no peito e olhos verdes, registrado no KCP Nr 1585 em 15 de Janeiro de 1952. Esse cão teve excelentes ninhadas, muitos agressivos, alguns deles na cor preta, mancha branca no peito e manchas marrons. Accioli fechou o seu canil em 1971.

Linhagem Samor (1920):

Sr. Gumercindo Saraiva, gerente da fazenda de propriedade Sampaio Moreira, em Cajuru, no interior do estado de São Paulo, comprou os seus primeiros Filas da família Meirelles de Campinas, ao redor de 1920. Eles eram tigrados escuros e também pretos. Mais tarde, o Sr. Saraiva, aumentou o plantel com Filas obtidos em Guaxupé e em Varginnha, região sul de Minas Gerais. O seu melhor cão foi Thor de Samor, um excelente macho tigrado, com colar branco, muito forte e com bom temperamento. Thor de Samor foi o pai da famosa fêmea de cor preta sólida azeviche Xita do ABC que se tornou Penta Campeã Brasileira ( cinco vezes campeã ) de propriedade do canil Samor.

Eu fiquei contente de ler na página 280, que a Sra Van Damme considera Urucê de Kirimáua com um “pedigri impecable”, Urucê é filha de Temporal do Kirimáua x Amazonas de Água Boa. Temporal pertencia ao Prof. Procópio do Valle que cria excelentes Filas pretos. O Sr. Jaime Hernantes, proprietário do canil El Regato de Subiria, da Espanha, comprou Urucê de Kirimáua e a acasalou com Cacique de Itavuvu ( filho do Grd. Ch. Int. Vencedor de Ranking Nacional em 1981, Alferes do Campinng de Sorocaba x Baúna da Cachoeira Dourada, fêmea preta azeviche), importado do Brasil pela árbitra alemã, Roswita Ketelhon, a qual guardou dois filhotes desta ninhada. O macho, Aquilia del Regato de Subiria, ganhou o campeonato Mundial de Dortmund em 1991. Eu gostaria de ressaltar que Alferes do Camping de Sorocaba, pai de Caramuru de Itavuvu, tinha por pai o : Grd,. Ch. Int. Ch. Sul. Vencedor Nacional do ranking de 1980, Orixá do Kirongosi, que se encontra na “lista negra” do Cafib…Na página 242 a autora escreve sobre o cão Xango dos Três Curumins “quizá el macho mas importante de la segunda mitad de los noventa es Xango dos Tres Curumins , hijo de otro macho famoso de Campinas: Itamar da Princesa do Oeste. Aqui encontramos también un linebreeding a base de Arace Poranga, que por su parte es hijo de Balaio da Fazenda Poço Vermelho. 

Xango ha sido el único macho puro disponible en la crianza centroeuropea durante muchos años , hasta su muerte en l998.” Acontece que a Sra. van Damme ignora que Balaio da Fazenda do Poço Vermelho era filho de Antar de Samor, este por sua vez filho da famosa preta sólida azeviche Penta Campeã Xita do ABC…

Na página nr. 266, encontra-se que Dartagnan da Zagaia Verde ( padreado pelo Gr. Ch. Int e vencedor Nacional do Ranking do ano de 1981, Alferes do Camping de Sorocaba x Agatha da Lagoa do Jaburu) foi o primeiro Fila a ser introduzido na França por Madame Ledroux, que também introduziu a linha Zagaia Verde na Espanha. O árbitro francês Christian Delmas importou Estrela de Tamuana (pai Destemido do Camping x Tunísia do Rodrigues) nascido em 1988. Estrela se tornou campeã na França. Fripon da Zagaia Verde, um reprodutor de grande importância na Espanha, vem de Apache do Planalto Central, cujos pais eram: Impala II do ABC e Uganda do Kirongosi. Se a Sra. Van Damme, tivesse um pouco mais de tempo para ficar no Rio de Janeiro examinando pedigrees, ela descobriria que muitos outros “autênticos” Filas aprovados pelo Cafib saem de cães mencionados em sua “lista negra”. Cacibe dos Pampas (Trinity), aparece em uma boa parte dos pedigrees do canil Boa Sorte. O Campeão Elo da Boa Sorte, tem Orixá II do ABC, HUR dos Pampas, Bororó do ABC, Impala do ABC, e Rubi do ABC no seu pedigree. .. Outros assim chamados “Filas puros do Cafib” como Castor de Tamakavi, foi padreado por Jacu do ABC x Conchita do Itacolomi, tendo Apache de Santa Olímpia, Guaíra das Sete Barras ( esta fêmea criada por João Batista Gomes, do canil Sete Barras), Parrudo do Guarany, Fronteira do ABC, todos em seu pedigree. Apache de Sta Olímpia, aparece em linhas do Cafib e da CBKC, tais como Jiruá de Muqui e Canil Boa Sorte. Duna (uma fêmea preta), reproduziu com Apache de Sta Olímpia, e nasceu a fêmea Pemba do Kirongosi. Podemos ver constantemente a linha de sangue ABC nos pedigrees cafibianos, mas a Sra Van Damme não parece ter percebido este facto. Ela também parece ignorar que o Sr. Peltier de Queiroz, era proprietário de um cão chamado Dumas dos Pampas, filho de Araribóia, e que o senhor Queiroz usou no seu canil chamado Cafibra, produzindo o cão Idi Amin Dada da Cafibra, neto de Araribóia. Curiosamente, esses cães Dumas dos Pampas e Ami Dada da Cafibra ( ambos de propriedade do Sr Queiroz ) não entraram na “lista negra”do Cafib. Olhando o pedigree de Itamar da Princesa D’Oeste (pai de Nagan do Amparo)encontramos o famoso Balaio da Fazenda Poço Vermelho, filho de Antar de Samor o qual era filho da legendária fêmea preta sólida azeviche Xita do ABC, cinco vezes campeã nacional no Brasil. A Sra Van Damme, parece ignorar mais uma vez os pedigrees e os ancestrais de seu canil Los Tres Naranjos, e também dos canis Acaboclado, São Fila e outros na Espanha que usaram e continuam a usar descendentes de Nagan do Amparo, Castor de Itamakavi e cães Boa Sorte.

O mesmo acontece na Alemanha com a linha Três Curumins e Fazenda da Carolina, ambos tendo a mesma linha de sangue de Castor de Tamakavi, Balaio da Fazenda Poço Vermelho, Antar de Samor e Xita do ABC.(preta).

Linhagem ABC (1906):

Certamente esta foi uma das mais importantes linhas da história da raça Fila Brasileiro. O Canil ABC é responsável por muitos campeões famosos, não só no Brasil como também na Europa e Estados Unidos. A família Monte começou o seu canil em 1906 com cães comprados de tropeiros de Sorocaba no interior do estado de São Paulo. Em 1920, adquiriram e trouxeram p/ o bairro do Ipiranga, onde mantinham sua indústria textil, um Fila grande e preto com branco no peito p/ ser o guarda de sua propriedade. Em 1934, trouxeram Filas amarelos e tigrados. Em 1939, começaram uma nova linha de cães Filas amarelos com máscara preta, baixos e largos, com vísivel influências de boxers e bulldogs. Não satisfeitos com esta linha, finalmente, com ajuda do criador Lemos de Franca, adquiriram um par (Sansão e Dalila) de São João da Glória, perto de Passos do Sul em Minas Gerais. Eles eram amarelos com máscara preta, tamanho médio e cabeças maciças e bons aprumos. Mais tarde, ainda adicionaram ao seu canil, cães vindos de José Alencar dos Reis, da fazenda Morro Grande, e de José Gomes de Oliveira, todos de Minas Gerais. Nessas fazendas havia muitos cães de caça, e ele notou que alguns dos cães trazidos de Minas Gerais, apresentavam a influência de cães de caça, com peito branco e focinho longo. Somente através dos anos, conseguiram fixar um tipo mais para o lado do Mastiff, eliminando cabeças pequenas e cães manchados. As mais importantes linhas de seu canil foram:

A) Orixá de Parnapuan (1959) vindo de Conselho Lafayette e Carmo de Minas. Orixá tinha um excelente temperamento estável. Ele foi a base do canil ABC. Seu melhor descendente foi Bororó do ABC (1974) excelente reprodutor que imprimiu sua cabeça maciça, muita barbela e excelente temperamento aos seus descendentes. Bororó do ABC era metade da linha de sangue Mandaqui.

B) Lambaré do Guaçu de Parnapuan _ Este cachorro tinha a altura de 80 cms. era longo e um pouco pernalta. Sr. Monte o usou embora não estivesse satisfeito com o temperamento de alguns de seus descendentes. Este cão era o único remanescente do plantel do Canil Parnapuan, depois que um surto de leptospirose dizimou a criação de Dr. Paulo Santos Cruz, o qual teve que começar tudo outra vez com fêmeas tigradas escuras dadas pelo Dr. Gregori Warchawchic e um macho de apelido Acarajé vindo da Fazenda do Engenho, Minas Gerais, registrado com o nome de Tigre de Araruama. Os seus descendentes transmitiram bastante branco.

C) Jaca de Itapecerica _ Esta linha também transmitiu muito branco e por esta razão o cão foi dado para o Sr. Mirtho Amaral. Os descendentes deste cão se tornaram famosos, como por exemplo, o famoso Guaçu do Cruzeiro do Sul, tigrado escuro, quase preto (av do Gr. Ch. Delicado da Fazenda Poço Vermelho). Guapo do Cruzeiro do Sul era malhado e de propriedade do Sr. Osny Morais Pinto e Sr. Luiz Bartuneck. Ambos cães foram usados na reprodução com uma pequena fêmea tigrada com alguma influência da raça Boxer oriunda de Guaxupé, Minas Gerais.

Albatroz do ABC, também era malhado e foi um dos Filas mais agressivos daquele tempo, usado pelo Dr. Antenor Lara Campos, Km 26, Estrada do Eldorado, Canil Ilha do Sabiá. O Sr. Lara Campos disse ao Sr. Enio Monte que seu avô Joaquim Pizza, já possuia Filas desde 1910 como guardas de sua propriedade. O pai deste, também tinha Filas na Fazenda da Garça, originária de Santa Cruz do Rio Pardo. Eles eram fortes, largos, com cabeças pesadas, amarelos ou tigrados com máscara preta e alguns deles tinham branco na cara. O Sr. Lara Campos começou seu canil no ano de 1940 no Haras Riachuelo em Cotia, São Paulo.

Registrou o canil no ano de 1958 com o nome de Ilha do Sabiá para onde mudou se e chegou a ter mais de 100 Filas Brasileiros. A melhor fêmea era chamada Brahma do ABC.

Outro campeão muito apreciado , de propriedade da Snra. Marilia Barroso Pentagna foi Elo da Boa Sorte, produto de Orixa II do ABC, tendo Bororó do ABC e Impala do ABC como avós, além de Rubi do ABC e Araribóia do lado materno.

É absolutamente ridiculo dizer que os Filas do Cafib são os únicos :”puros”, uma vez que eles vem do mesmo plantel do canil ABC. Qualquer um que tenha pedigrees antigos poderá verificar isso.

CANIL CRUZEIRO DO SUL (1966)

O Sr. Morais Pinto começou seu canil com a fêmea chamada Guaira trazida de Guaxupé, Minas Gerais, ( com registro inicial BKC/KCP 22668). Ela era tigrada e pequena, porém forte. Junto com Juca de Itapecerica ela produziu o famoso Guaçu do Cruzeiro do Sul (BKC/KCP #23054), com 70cms. de altura, pesando 73 kgs. Desta linha descende o campeão nacional Hudson of Bras Dog, que aparece nos pedigrees de Orca, Xavante, Baiana, Vereda, Juriti, Hunno, Fumaça,e Aroeira da Boa Sorte. Além disso, o pedigree de Raio de Paraibuna, (do criador Cel. Arthur José Walter Verlangieri, proprietário do canil Paraibuna, em Belo Horizonte, fundador do CMCFB- Clube Mineiro dos Criadores de Fila Brasileiro) mostra Hudson of Bras Dog (linha paulista) como padreador de Raio, Rás, Rainha, Riga, Recruta e Reiuna de Paraibuna, e sendo que este tradicional “canil mineiro” localizado em Belo Horizonte, Minas Gerais, usou extensivamente linhas paulistas do canil Bras Dog, Cruzeiro do Sul, Guaropé-Açu, e Itacolomi.

Na página l89, sob o título “Colores permitidas por el standard de la FCI”, a Sra. van Damme inclui as cores cinza (ceniza claro, ceniza prateado) quando em realidade, em outras línguas as cores “ashe “, “grey”, “ceniza” não são permitidas. Talvez haja uma confusão feita com as cores “champagne”e “vinagre”as quais são permitidas sob a classificação de dourado, não cinza. Também a Sra.van Damme continua repetindo incessantemente que as cores tigrado escuro e preta não são permitidas pelo Cafib. Ela deveria repetir continuadamente que o tigrado escuro e o preto são cores permitidas pelo padrão oficial da FCI: Todas as cores sólidas, excetuando-se as desqualificantes, tigrados de fundo nas cores sólidas, com rajas de pouca intensidade até os fortemente rajados, podendo apresentar ou não máscara preta. Quando você tem um Fila preto com uma só raja amarela, ele é considerado tigrado, e não como preto sólido.

Na página 139 a autora escreveu: ” La Confederação do Brasil Kennel Club no se preocupaba de limpiar su propio establo, al contrario, seguia con ataques a los “disidentes”del Cafib“. Eu tenho a dizer que o “estábulo” no qual o senhor Paulo Roberto Godinho (que escreveu o prólogo do livro da Sra. van Damme enxarcado de propaganda da Cafib} está homologado como árbitro, deverá ser submetido aos mesmos regulamentos que suspenderam o árbitro Christopher Habig de julgar no Brasil. Nenhum árbitro da CBKC/FCI tem permissão de promover um clube dissidente,ou de seguir algum outro padrão que não seja o oficial, e o senhor Godinho declarou-se abertamente ser um seguidor da teoria do Cafib (página 198). O “estábulo” tem um Conselho de Disciplina e de Ética que deverá se ocupar do senhor Godinho em breve.

Dunga do Parnapuan exportado por Paulo Santos Cruz Garoa de Parnapuan primeiros filas brasileiros exportados para a Europa                  

Dunga de Parnapuan e Garoa de Parnapuan. Primeiros filas brasileiros exportados para a Europa pelo Dr Paulo Santos Cruz.

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